sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Vôo de Catalina

SOBREVIVENDO AO VÔO DE CATALINA, À FORTE PRÍNCIPE DA BEIRA...RONDÔNIA ...1969. Em outubro de 1968, eu pousava num velho DC-3 da VARIG, no aeroporto Ponta Pelada, de Manaus AM. Meu vôo era procedente de CÁCERES -MT , sede do 2.o Batalhão de Fronteira do Exército. Eu havia servido no Destacamento de Bela Vista do Norte, (Hoje Porto Índio), no Pantanal, rio Paraguai, entre as Lagoas Uberaba e Gaíba, fronteira com a Bolívia. Foram 18 meses e 1 dia. Jovem, 19 anos, 3.o Sargento Radiotelegrafista do Exercito Brasileiro, sentia-me um desbravador no meu Querido Brasil ! Nosso vôo até Manaus, teve escalas em Forte Príncipe da Beira e Porto Velho em Rondônia. Pernoitamos em Porto Velho, porque o DC-3 iria até Rio Branco no Acre e só voltaria no dia seguinte, quando embarcamos novamente na mesma aeronave, rumo à Manaus. Ao descer em Manaus, vi estampada na primeira página do Jornal “A NOTÍCIA” de Manaus, a seguinte manchete: “ EXPEDIÇÃO DE PADRE CALLERI – DEVORADA PELOS ÍNDIOS ATROARIS NO TRAÇADO DA FUTURA ESTRADA DE MANAUS PARA BOA VISTA EM RORAIMA” . Aquilo chocou-me, não imaginava que isto ainda acontecia... No QG do Grupamento de Elementos de Fronteira, fui locado na Seção de Meios e Material da Estação de Rádio AM-1 subordinada ao SSRMEx/GEF. Como radiotelegrafista, não me sentia bem em trabalhar na burocracia de controle de cargas, confecção de mapas, almoxarife de Radios Transmissores, Receptores, Válvulas etc. Minha função era na “Posição de Radiotelegrafista, comunicando-se em Código Morse, com os radiotelegrafistas dos Pelotões de Fronteira. Mas enfim, missão dada...missão cumprida. “Tão logo seja possível... e chegue outro Sargento que tenha especialização de Almoxarife, você voltará à escala de radiotelegrafista...vivia ansioso por este dia. Certa tarde, Major C. Pinto, chamou-me: “Sargento Adilson - o Radiotelegrafista que está em Forte Príncipe da Beira – Rondônia, estará de férias em Janeiro de 1969. Você quer ir para lá substitui-lo naquele período?” Aceitei a missão. Embarcaríamos no velho avião do CAN, Correio Aéreo Nacional, aviões da FAB, modelo conhecido como “Catalina”, misto de hidroavião que pousava em rios e lagos e também nos aeroportos de terra. Poucos dias antes do embarque, outro colega radiotelegrafista, O Sargento Cláudio, tinha o prefixo de rádio “ALK”, o meu prefixo era “AKM”, e assim nos conhecíamos entre os colegas de rádio ! Chamou-me ...”AKM ! ...eu gostaria de ir no seu lugar para Forte Príncipe da Beira, pois pretendo casar-me no Rio de Janeiro em Março e o dinheiro extra de “diárias de viagem”, reforçaria meu caixa para ir ao Rio de Janeiro, casar-me e trazer minha esposa para Manaus. Ok, falamos com o Major C. Pinto e a troca foi aceita. No embarque para Forte Príncipe da Beira, o Catalina foi carregado com material para o quartel de lá. Muita carga, entre eles um Grupo Motor Gerador da Yanmar, para estação de rádio do quartel, caixa grande e pesada, assim como toda uma carga para o aquartelamento. O Catalina decolou pesado e foram-se para Forte Príncipe da Beira. Acompanhávamos ao vôo pelo radio de bordo avião em contato em Morse. Perdemos o contato. Era comum por tempestades ou as vezes pane do rádio do Catalina. Após muitas horas de “silencio”, a estação de Forte Príncipe da Beira, avisava que o “Catalina” não chegara no horário previsto. Vôos na Amazônia, ainda hoje são problemas, imaginem em 1969. Noite e dia angustiante ! Eis que então, recebemos a informação que o “Catalina” teve pane sobre a selva Amazônica e ainda longe de local para pouso. A aeronave perdendo altura, o Piloto Comandante, determinou que abrisse a porta traseira e se lançasse toda a carga interna, da aeronave para fora, na tentativa de se procurar estender ao vôo e encontrar um rio ou lago para pouso...imaginem o desespêro do amigo Sargento Cláudio e toda tripulação. Tudo foi jogado para fora, inclusive malas da tripulação. Ficaram só com os uniformes que vestiam ! Conseguiram com muito custo pousar em um lago...onde foram resgatados dias depois pelos valorosos Militares da FAB e Exército Brasileiro. Quando nos falávamos com Sargento Cláudio (ALK) rádio, ao longo dos anos, ele acabou indo morar no Rio de Janeiro, sempre lembrávamos do susto...e que eu por uma simples troca, ficara de fora ! Acasos da Vida ! Seguimos em frente ! Texto de Adilson Tadeu Machado